De repente meu corpo começa a rejeitar aquele pedaço de queijo que eu adorava; de repente o ovo de todos os dias fica sem graça e repulsivo; de repente o sabor do tão adorável leite condensado fica insuportavelmente repugnante; de repente aquela fruta esquisita no mercado parece fazer reluzir meus olhos; aquele legume estranho de repente torna-se tão aprazível que vicia; de repente as comidas que outrora eram sem sabor, como o chuchu e a cenoura (sim, eu achava o sabor da cenoura péssimo) tornam-se deliciosos.
De repente estou mais disposta; de repente estou mais consciente; de repente me sinto bonita; de repente estou mais feliz, de repente estou mais forte, de repente emagreci dois quilos. E tudo isso parece tão súbito (eis o porquê dos tantos "de repente").
Contudo, nada aconteceu assim tão fugaz; são mais ou menos quatro semanas de transição ao vegetarianismo estrito depois de três anos de ovolactovegetarianismo. Durante estes três anos, cheguei ao ponto de perceber que meu corpo já avisava claramente que não era possível continuar com essa dieta que eu estava tendo. Como ele avisava? Inchaços abdominais constantes e desagradáveis, constipação (prisão de ventre) intercalado com intestino solto. Ansiedade, angústia e irritação dia após dia. Aparência cansada, aumento considerável de peso, desejo de regurgitar o que comia sempre que comia (vontade incitada por pensamentos que vinham de um princípio de bulimia); sintomas de TPM cinco vezes mais intensos.
Esses avisos de meu corpo só vieram à minha consciência quando eu passei muito mal por dias; me neguei ir ao médico (como sempre, pois, não suporto a ideia de tomar remédios com dez efeitos colaterais), então vi-me n'uma constante busca por respostas, pela cura de meu problema. "Vamos lá, você pode se curar sozinho, quase sempre foi assim, não me faça ir ao hospital dessa vez" - era o que eu dizia ao meu próprio corpo.
Comecei a ler inúmeros artigos e logo tratei de excluir de minha dieta o que, em hipótese, poderia estar me fazendo mal. Chocolates, salgadinhos, pães... Leite? Não, como poderia ser culpa do leite? Li um artigo sobre intolerância à lactose, será que eu estava com intolerância? Só havia um jeito de saber. Não mais leite, não mais derivados de leite.
Árduos dias pesquisando sobre substitutos veganos para o leite, para o queijo, para a manteiga. Árduos dias achando que não iria conseguir, chorando de medo por ver que meu corpo ainda estava péssimo e eu não estava conseguindo ajudá-lo mudando minha dieta para o vegetarianismo estrito.
Eis que lutei, com todas as minhas forças, para ficar sete dias sem ingerir nada de leite, nada com leite. No quinto dia já não havia mais medo, não havia mais tristeza, eu estava empolgada para continuar, fiz receitas diferentes que deram certo, aprendi inúmeras coisas importantes sobre alimentação. E meu corpo? Meu corpo voltou ao normal, aliás, ele tornou-se normal como nunca fora. Meu intestino passou a funcionar adequadamente de um jeito único, nem na infância e nem na adolescência meu corpo esteve em tamanha harmonia.
Hoje olho-me e vejo todos estes "de repente" que mencionei, alegro-me em vê-los e alegro-me muito mais por saber que tudo isso aconteceu por uma verossímil persistência. Não relato minha história para fazer os outros acreditarem em milagres, isso não é milagre, isso é trabalho duro! Conseguir cura sem ir ao médico é um processo de anos, é preciso mudar toda a mente, é crucial reeducar a alimentação, é vital domar as próprias emoções (domar não é oprimir), é de suma importância o autoconhecimento.
Por tudo isso que cultivo eu posso dizer que eu sei o poder que eu tenho; o poder da minha mente, o poder de meu corpo. Não há nenhum outro animal com as minhas capacidades (as capacidades humanas), eu posso chegar mais longe, eu posso ser o que quiser e isso não se trata de "good vibes" ou algo que incite a felicidade constante, não, não sou feliz constantemente, meus problemas não foram todos resolvidos (muitos foram, mas muitos ainda existem), não me tornei hippie moderna, não estou seguindo a tendência.
Eu só, e apenas, pensei. Eu só e apenas ouvi meu organismo.
Agora eu estou em outro nível; um nível que me faz ver amplamente tudo ao meu redor.
O objetivo primeiro sempre foi alcançar a consciência absoluta, com o vegetarianismo estrito eu sinto que estou mais perto de alcançar este objetivo.
E é apenas a transição, sinto-me inspirada com o que ainda há de vir.
